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Leia o trecho de Macunaíma, narrativa de Mário de Andrade. Nem bem pisou na praia e se ergueu na frente dele um monstro. Era o bicho Pondê um jurucutu do Solimões que virava gente de-noite e engolia os estradeiros. Porém Macu- naíma pegou na flecha que tinha na ponta a cabeça chata da formiga santa chamada curupê e nem fez pontaria, acertou que foi uma beleza. O bicho Pondê estourou virando coruja. (Macunaíma – o herói sem nenhum caráter. Ed. crítica de Telê Porto Ancona Lopez, 1988) Esse trecho evidencia uma característica comum à composi- ção de Macunaíma, que é

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Alternativa (A) - o emprego de recursos próprios dos contos maravilhosos, produzidos pela cultura popular.
A questão aborda um trecho da obra modernista Macunaíma – o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, e solicita a identificação de uma característica fundamental da composição narrativa, evidenciada no excerto. A análise focará nos elementos fantásticos, na representação do herói e na origem cultural das figuras apresentadas.
Macunaíma é uma obra seminal do Modernismo brasileiro, publicada em 1928, que se propôs a criar um "mito de fundação" da brasilidade. Mário de Andrade buscou sintetizar a diversidade cultural, linguística e étnica do Brasil, apresentando um herói que percorre o país, absorvendo e refletindo suas peculiaridades. A narrativa é uma rapsódia, uma junção de mitos, lendas, folclore indígena e popular, contos europeus e elementos da vida urbana moderna, tudo imerso em um universo fantástico e muitas vezes irreverente. O "herói sem nenhum caráter" é uma figura ambígua, preguiçosa, sensual e oportunista, que subverte a ideia tradicional de heroísmo, mas que, paradoxalmente, encarna a identidade brasileira em suas contradições.
A característica evidenciada no trecho é o uso de elementos típicos dos contos maravilhosos e do folclore popular, que são centrais na construção de Macunaíma.
| Característica | Análise no Trecho e na Obra | | :-------------- | :-------------------------- | | Monstro Fantástico | O "bicho Pondê um jurucutu do Solimões que virava gente de-noite e engolia os estradeiros" é uma criatura sobrenatural, uma figura típica de lendas e mitos populares, dotada de poderes de transformação. | | Ação do Herói | Macunaíma derrota o monstro com facilidade, usando uma "flecha que tinha na ponta a cabeça chata da formiga santa chamada curupê" – um objeto mágico ou com poder mítico. A forma como o bicho "estourou virando coruja" é uma transformação fantástica, comum em contos de fadas e folclore. | | Origem Cultural | A menção a um "jurucutu do Solimões" e a uma "formiga santa chamada curupê" remete diretamente à fauna e à flora brasileiras, bem como às crenças e ao folclore indígena e caboclo da região amazônica. Mário de Andrade compilou e recriou inúmeras lendas e figuras do imaginário popular brasileiro para compor sua obra. |
Vamos examinar as alternativas:
(A) o emprego de recursos próprios dos contos maravilhosos, produzidos pela cultura popular. CORRETA. Esta alternativa descreve perfeitamente os elementos presentes no trecho: criaturas fantásticas, objetos mágicos, transformações e a origem dessas figuras no folclore e nas lendas populares brasileiras, características essenciais de Macunaíma.
(B) a representação de um herói aos moldes clássicos, cujas ações são motivadas por bravura. INCORRETA. Macunaíma é o "herói sem nenhum caráter", um anti-herói que subverte os padrões clássicos de bravura, moralidade e nobreza. Suas motivações são frequentemente egoístas, hedonistas ou preguiçosas, e suas vitórias, como a do trecho ("nem fez pontaria, acertou que foi uma beleza"), muitas vezes acontecem quase por acaso ou por astúcia, não por uma bravura heroica no sentido tradicional.
(C) o resgate de figuras representativas da mitologia greco-latina, o que confere à obra status de um texto épico. INCORRETA. As figuras e lendas em Macunaíma são predominantemente de origem indígena e popular brasileira, não greco-latinas. Embora seja uma "rapsódia" com elementos de viagem, a obra deliberadamente se afasta do status épico clássico ao ridicularizar o herói e usar uma linguagem coloquial e fragmentada, distanciando-se da grandiloquência épica.
(D) o uso de um vocabulário específico do norte do Brasil, o que resulta em uma obra tipicamente regionalista. INCORRETA. Embora Macunaíma incorpore vocabulário de diversas regiões do Brasil, incluindo o Norte, e termos indígenas, a obra não é "tipicamente regionalista". O regionalismo literário tradicionalmente busca retratar de forma realista e aprofundada a vida e os costumes de uma região específica. Macunaíma, ao contrário, é uma síntese fantástica de "todo o Brasil", utilizando a linguagem como um mosaico para construir uma identidade nacional complexa e multifacetada, e não para focar em uma única região de forma realista.
(E) o predomínio do enredo psicológico sobre o factual, o que faz com que o texto seja mais ensaístico que narrativo. INCORRETA. Macunaíma é uma narrativa repleta de eventos fantásticos e ações (o "factual", ainda que irreal). Não há um predomínio de análises psicológicas profundas dos personagens; as motivações de Macunaíma são mais arquetípicas e superficiais. A obra é eminentemente narrativa, uma "rapsódia", e não tem a estrutura ou o propósito de um texto ensaístico.
O trecho de Macunaíma exemplifica claramente a incorporação de elementos de contos maravilhosos e do folclore popular brasileiro. A presença de um monstro transformador, um herói que o derrota com um objeto mágico e a referência a lendas e seres do imaginário indígena e caboclo são marcas registradas da obra de Mário de Andrade, que buscou na riqueza da cultura popular a matéria-prima para a construção de sua visão sobre a identidade brasileira.
Alternativa (A).