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No ensino de Língua Portuguesa, a valorização das variedades linguísticas é uma questão central, pois envolve o reconhecimento da diversidade cultural e a inclusão das diferentes formas de expressão dos alunos. No entanto, essa valorização, quando não cuidadosamente conduzida, pode gerar consequências não intencionais, como a perpetuação de hierarquias entre as formas de falar. Assim, é necessário refletir sobre os possíveis impactos dessa prática pedagógica.
Com base na valorização das variedades linguísticas e seus possíveis impactos negativos, assinale a alternativa que responde corretamente uma consequência associada a essa prática.
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Alternativa B - Reforçar hierarquias implícitas entre as variedades.
A valorização das variedades linguísticas no ensino de Língua Portuguesa é um princípio pedagógico fundamental, alinhado à perspectiva de uma educação inclusiva e multicultural. Ela busca reconhecer e legitimar as diversas formas de expressão que os alunos trazem de seus contextos sociais e culturais. Contudo, o enunciado da questão alerta para uma complexidade inerente a essa prática: a possibilidade de que, se não for conduzida com rigor e crítica, pode gerar impactos negativos, como a perpetuação de hierarquias entre as formas de falar.
A Língua Portuguesa, como qualquer língua viva, é heterogênea e se manifesta em múltiplas variedades, influenciadas por fatores geográficos, sociais, históricos e culturais. O ensino que valoriza essa diversidade visa combater o preconceito linguístico, promover o respeito pelas diferentes identidades e ampliar o repertório linguístico dos estudantes, capacitando-os a transitar entre as diversas variedades e a utilizar a mais adequada a cada situação comunicativa.
No entanto, o desafio reside na forma como essa valorização é implementada. Em muitas práticas pedagógicas, mesmo com a intenção de incluir e desmistificar, pode-se, paradoxalmente, acabar reforçando a ideia de que existe uma variedade "padrão" ou "culta" como referência superior, e as demais como "desvios", "curiosidades" ou "formas populares" a serem apenas "toleradas" ou "estudadas" em contraste. Isso ocorre quando a abordagem não é dialógica e crítica o suficiente, e a exposição às variedades não é acompanhada de uma reflexão aprofundada sobre as relações de poder subjacentes à língua.
As hierarquias linguísticas são construções sociais, não inerentes à língua em si. Elas refletem desigualdades de poder e status na sociedade. Quando se fala em "hierarquias implícitas", refere-se àquelas que não são explicitamente declaradas, mas são percebidas e reproduzidas nos discursos, nas atitudes e nas expectativas em relação aos falantes de determinadas variedades.
Vamos analisar cada alternativa à luz do que foi discutido e do enunciado da questão:
| Alternativa | Análise | Consequência | | :---------- | :---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- | :------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- | | (A) Eliminar hierarquias sociais entre as variedades. | Esta é a intenção ideal e o objetivo desejável da valorização das variedades linguísticas. No entanto, o enunciado busca uma consequência não intencional e negativa quando a prática não é cuidadosamente conduzida. Portanto, não se encaixa na pergunta. | Incorreta. É um objetivo, não um impacto negativo. | | (B) Reforçar hierarquias implícitas entre as variedades. | Esta alternativa descreve precisamente o impacto negativo e não intencional que o enunciado aponta. Ao tentar valorizar as variedades, sem uma reflexão crítica sobre as relações de poder, a escola pode, inconscientemente, reforçar a visão de que uma variedade é "superior" ou "referência", enquanto as outras são apenas "variantes a serem conhecidas". As hierarquias são "implícitas" porque não são declaradas abertamente, mas percebidas nas atitudes e na maneira de tratar as diferentes formas de falar. | Correta. Corresponde à "perpetuação de hierarquias" mencionada no enunciado como um impacto negativo da prática pedagógica não cuidadosa. | | (C) Sustentar hierarquias culturais entre as variedades. | Embora as hierarquias linguísticas estejam intrinsecamente ligadas a hierarquias culturais e sociais, o termo "sustentar" pode sugerir uma ação mais direta ou intencional de manutenção. O enunciado foca na "perpetuação de hierarquias" de forma não intencional, o que é melhor capturado pelo "reforço implícito". Além disso, a alternativa (B) é mais específica ao fenômeno linguístico e à natureza "implícita" da perpetuação. | Incorreta. Embora relacionada, (B) é mais precisa ao contexto da não intencionalidade e da natureza das hierarquias em questão. | | (D) Ignorar hierarquias linguísticas entre as variedades. | A valorização das variedades, por si só, é um ato de reconhecimento e não de ignorância das diferenças e das hierarquias existentes. O problema surge na forma como esse reconhecimento é conduzido, não em ignorar. Pelo contrário, ao trazer as variedades para o debate, as hierarquias podem se tornar mais visíveis, e o risco é de reforçá-las. | Incorreta. A prática de valorização não ignora, mas lida (bem ou mal) com as variedades e suas hierarquias. | | (E) Adequar hierarquias explícitas entre as variedades. | "Adequar" implica ajustar ou tornar apropriado. As hierarquias explícitas são justamente aquelas que se busca desconstruir e não "adequar". O problema discutido no enunciado se refere ao reforço de hierarquias já existentes, muitas vezes implícitas, e não à adequação de hierarquias manifestas. | Incorreta. O foco não é em adequar hierarquias explícitas, mas nos impactos não intencionais sobre as hierarquias existentes. |
A valorização das variedades linguísticas é uma prática pedagógica essencial para uma educação equitativa e inclusiva. Contudo, para que atinja seu objetivo de desconstruir o preconceito e promover o respeito pela diversidade, deve ser conduzida com extremo cuidado e senso crítico. Caso contrário, há o risco de que, mesmo com as melhores intenções, a abordagem didática reforce, de forma sutil e não intencional, as hierarquias implícitas já presentes na sociedade, perpetuando a visão de uma variedade linguística como norma superior em detrimento das demais. A alternativa (B) captura essa complexa e delicada consequência.
Alternativa B.